quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

tentando um emprego.




Diana, abriu uma vaga na CHerish World, a empresa suíça em que trabalhei. Eles precisam de alguém com o seu perfil. Escreva uma carta de apresentação, dizendo o porquê de você desejar trabalhar lá e ressalte suas experiências em pesquisas. Aponte suas qualidades para tudo que envolve o perfil ao cargo. Lembre-se de dizer o quão fluente você é no espanhol e no inglês e mostre conhecer a empresa. Vá ao site e dê uma pesquisada. Lá há muita informação contundente e alguns bons exemplos de projetos, bem sucedidos, atrelados a Cruz Vermelha. Não se esqueça que eles têm um marketing muito forte calcado em ações filantrópicas. Doam zilhões de remédios para inúmeros lugares carentes do mundo. Se quiser, me envie a carta que você vai fazer, para eu dar uma olhada antes, tá? Um beijo, Flávia. Ah, amanhã é o último dia para a inscrição dessa vaga.


Diana lê o email de Flávia e, por um acaso, está bem alcoolizada, após chegar de um jantar japonês, com uma amiga. Elas entornaram boas doses de saquê com morango. Diana não sabe o que fazer e, sentindo-se pressionada, resolve escrever a importante carta. Solicita a ajuda de Eva, que a ignora, como tem sido comum nas noites quentíssimas de verão. Seu corpo está mole, fatigado, e ela se sente assada dentro de seu pequeno e acolhedor apartamento. Liga o ventilador e sua mais água do que o volume que transborda em Niagara falls. Mauro dorme, sem o ar condicionado, e Diana derrete os neurônios, tentando encontrar o que escrever.


Prezados,

venho por meio desta apontar meu sincero desejo de trabalhar com vocês, para vocês, por vocês. Para tanto abro meu peito e vos digo o porquê: chamo-me Diana e tenho 30 anos. Sou casada com um empresário. A vida não tem sido fácil desde que fiquei desempregada. Houve momentos deslumbrantes e indescritíveis, tão logo livrei-me de meu último ofício, no entanto, uma vez que o dinheiro terminou, a situação deixou de ser graciosa. É sabido, em todo o globo, que a CHerish World visa levar acalento, de maneira objetiva e engajada, aos órfãos do capitalismo. Portanto disponho de todo meu sangue e saúde para fazer parte dessa causa. Meu currículo confirma minhas habilidades. Possuo experiências diversas no setor de pesquisas e foram elas de cunho cultural e institucional. Como produtora, enlouqueci com a imensa quantidade de coisas a serem feitas. Contudo, me assegurei como profissional competente, quando me vi absorta em centenas de problemas, que puderam ser resolvidos graças a minha sagacidade, rapidez de raciocínio, minha retórica, meu charme, minha diplomacia e meu carisma. Mais que isso, passei a ser a contadora mais precisa que julguei poder conhecer. Planilhas no excel, cáculos, balanceamento de custos, documentação de toda ordem? Resolvo tudo o que for necessário, sorrindo de orelha a orelha, sempre asseada e impecável. Através da experiência acadêmica, que tive no Instituto de Sociolgia da Universidade, adquiri importantes experiências em pesquisas de projetos concretos e experimentais. É válido ressaltar a vivência antropológica diária ao qual fui submetida, no logus de meu saber, por 5 longos anos. Sendo também uma ex burguesa, tudo que anseio é o trabalho na área de implantação de projetos de desenvolvimento político, que visem melhorias sociais de toda ordem. Após variados contatos com os mais diversos meios, afirmo que só há uma maneira de melhorar as sociedades: o combate a toda sorte de desigualdade social, que torne o cidadão indigno e humilhado. É preciso buscar meios de atenuar essa brutal diferença entre sociedades e suas classes, que por incrível que pareça, são compostas por seres humanos, tal como nós. Em minha infância cultuei ídolos do rock, cujo a admiração não feneceu, por serem alguns deles, hoje, grandes ícones da luta pelo direito aos bens maiores e da igualdade para todos. Meus delírios me dirigem à revolução francesa e reverberam em mim, os gritos, em uníssono, de IGUALDADE, FRATERNIDADE e LIBERDADE. É por isso tudo que eu luto e brigo por essa vaga. É importante lembrar que meu inglês é fluente, meu espanhol também e o francês quase digno. Sendo essas, as línguas faladas nas Américas, não ignorando os tantos outros idiomas indígenas, reafirmo ser eu quem vocês procuram. Recebendo essa chance, eu topo trabalhar por míseros R$1.600,00, afinal sou brasileira e resignada. Prometo honrar meus compromissos com todo o zelo e comprometimento. Mais que isso, serei a alegria de vocês. São infinitas minhas histórias. Sou criativa, dinâmica e sincera. Aguardo, serena, o sim. Afinal, sou uma mulher equilibrada e sã. Não poderia deixar de dizer, que se hoje, me encontro nesse estado de espírito, foi por ter sido uma beneficiada pelo projeto de vocês, concomitante à Cruz Vermelha, que possibilitou estabilizar minha alma com a doação dos mais eficazes tranquilizantes.

Cordialmente,

Diana.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

pai.





Eva, sou mesmo uma louca. Sentir demais dá nisso. Nos torna loucas. Mas quem não é assim? Até quem diz não ser, no fundo, apenas reprime as emoções. Todos sentem muito. E sentimos muito por tantos. Estou sempre, inexoravelmente, tentando me acertar comigo mesma. Seguramente, essa é chave para a expansão da consciência e enaltece a outra face da liberdade que não consegui voar (ainda). Você, mais que ninguém, sabe o que isso representa. Gente, devem jurar que sou lésbica e apaixonada por você, se lerem isso. Ui! Arrepiada. A opinião alheia importa? Devemos pular fora dessa ideia tão fora de magia. Bom, voltemos. Fato é que sou leve. Se estou eu sou, não é? Por isso fui direto ao SOU. Porque sou soul e esse trocadilho é sei lá. O que venho dizer é que conversei com o velho. Fiquei surpresa ao pensarem que éramos amantes. Fiquei incomodada e disse PAI algumas vezes, um tom acima do bom, para deixar claro para o mundo (eu mesma nesse caso. Sou o mundo.) que eu falava com meu PAI. Sou tão orgulhosa por isso. Por tê-lo, por sê-lo e por nosso acordo de contas sereno e imprevisto, mas que cabe perfeitamente no momento que é o sempre. Sempre feitos de amor. Refeitos de amor e de idade, que brotou aprendizado e rugas. Rugas são como rios e seus afluentes em nossa pele. Rios que correm mapeando o vivido, que cresce conforme o curso das águas (elemento emocional), mas a mim, hoje, lhe digo, é símbolo valioso e feliz. Quero ser um maracujá de gaveta! NOT! Ainda bem que a cosmética não para de progredir. Mas as rugas sempre surgirão. Penso em me prevenir do excesso de botox, de qualquer maneira, afinal, nessa viagem de alusões de rios às rugas, eu temo também a tromba d´água. Imagina aparecer com a cara da velhONNA? Seria muita falta de dignidade. Porém, devo dizer, que o diálogo entre mim e meu ancestral foi gratificante e me refez, do que pensava eu desfeito. Reconstruiu o concreto sentimento que não tem palavra, mas que resulta em paz. Agradeço ao... Não sei como chamar sem parecer uma carola profana. Bom, aos amigos, melhor assim, que têm santíssima paciência. Esqueci de dizer que até para o mais ferrenho ateu, seria possível ver meu falecido avô a mesa. Foi ele o elo e a alegria daquele encontro imerso em absolut lima da pérsia e melancia com gengibre inebriante. Tudo passará. Tudo. ABSOLUT {amente (em)} tudo. Seja lá o que for. Esse é o maior lema que podemos seguir. Por isso, quero aproveitar a maré boa e celebrar dois de fevereiro com você!! E, também hoje, oferto a deusa maior, de nossa latinidade nagô, minha alegria e meu obrigada! E a propósito: também não assisti a Vale Tudo ontem.

Beijos, Diana.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

briga de novela.




Evandra, amiga querida, são 4h25 da manhã e acabei de ter uma discussão terrível(ou master) com o Mauro. Isso tem sido cada vez mais frequente desde que ele entrou na terapia. Contudo o alvo de suas candentes escarradas, no episódio de hoje, fui eu mesma. Acabei de escutar duras verdades. Fui obrigada a ouvir, controlando minha ira, que ele não aguenta mais sustentar essa casa enquanto eu acordo ao meio dia. Fui obrigada a escutar que ele não suporta mais não conseguir juntar dinheiro, por ter que me carregar nas costas. Fui obrigada a ouvir que não faço movimento nenhum para crescer, para me expandir, para ser alguém. Fui obrigada a escutar que sou acomodada e imatura. Fui obrigada a ser bombardeada por suas palavras e me resguardar em uma trincheira aberta com a urgência do zelo. E o pior é que, dentre os muitos por menores dessa conversa, eu tive que concordar em admitir duros pontos feitos de verdade. Afinal, ele percorreu toda a trajetória, desde os idos de nossa união, para fazer valer seus argumentos tão crus quanto a mais futre carnificina. O verbo voou envolto na mais cândida fúria (acarretando em mim imenso desconforto) para discorrer sobre a situação que ilustra bem (mal) nosso casamento. Naturalmente, ele validou seu discurso sob o álibi, de ser ele, uma prova de amor. Disse estar fazendo por mim o que meu pai jamais fez, uma vez, que sempre tive "tudo" dele, em termos materiais, e que isso me acostumou mal e me invalidou de atitudes que precisam ser executadas, para mudar esse quadro inerte e de cores cada vez mais opacas. Foi extremamente doído toda a conversa, em tons exaltados, repito, durante vários momentos. Tudo teve inicio num rompante, que sequer lembro donde surgiu. Escrevo para desabafar apenas. Escrevo por saber ser você uma grande amiga e também adoradora de novelas. A minha está nessa fase insuportável (para os protagonistas), em que as personagens vivem o clímax, sem um final ainda escrito. Narro, portanto, essa madrugada errante, mas na tentativa de acerto, com um simples intuito já citado: extravasar. É também preciso assumir o desejo de um final feliz. Pois, de acordo, com todas as obras televisivas as quais assisti, de alegria, ao final de cada saga, se fazia o grande barato. Torço para a realidade suprir a vida, de fantasia possível, e de amor cortês e triunfante. Pois sei também que se as novelas presumem e se inspiram na vida, há possíveis finais felizes. Te amo e obrigada por ser o ombro, o ouvido e os olhos amigos. Permanece um anseio: "quero ver quem paga pra gente ficar assim".

Diana.

domingo, 9 de janeiro de 2011

meneios inconscientes.



assistia a uma película antiga, gravada em super 8. Eis a cena: três mulheres de subtil beleza, alvas e de aparência etrusca, conversavam em um carro conversível. A atmosfera remetia ao final da década de 60. Tinham madeixas castanhas, lisas e na altura dos ombros. Uma delas chamava-se Eva, a única que ornava a face com uma franja. As outras eram Flávia e Amanda. Eram jovens de pele viçosa e de personalidade esfuziante. As ruas por onde elas passavam, sem pressa, me remeteram as mais discretas transversais do SoHo novaiorquino, em meados primaveris. De súbito, fui inserido naquele preciso lugar. Fui um dândi carioca, submerso nos rudimentos da Manhattan de minha memória. Segui, calmamente, o contorno das esquinas que se fizeram labirinto. Ainda assim, o deslumbre do recomeço, me levou ao transbordar das emoções mais inquietantes e jamais esmaecidas. Caminhava por sobre os paralelepípedos e navegava os idos de minha mente, sempre afeita de meneios misteriosos. Cheguei ao ponto crucial dessa viagem, quando deparei-me com duas construções surpreendentes e absolutamente distintas, da paisagem pela qual eu passeava. A visão dos magistrais monumentos chocaram meu espírito. Reconhecia já ter estado ali outras vezes. Senti forte vontade de permanecer naquele bairro de deslumbre irracional. O primeiro deles era construído do mais límpido ouro e tinha ares orientais. A singular jóia arquitetônica fazia pulsar violentamente o sangue em minhas veias. Em torno da enorme porta havia pilastras contorcidas e que ultrapassavam os limites do edifício destoante. Em sua porta, uma jovem mulher, portava um lenço escuro e com estampas na cabeça. Vestia uma camisa branca de algodão e uma longa saia escura, com detalhes bordados. Chamava-me atenção sua aparência similar ao das atrizes do filme, cujo o espetáculo teve início. Seu olhar era profundo como o castanho que o coloria. Os detalhes do exuberante edifício eram imensos e sobressaltavam minha percepção confusa. Ao lado dele, um outro prédio monumental, de estilo muito semelhante, em um tom de azul tão intenso, que seria medíocre tentar explicar. Em um rompante imperceptível, eu mergulhava no segundo prédio, de paredes em que os tons de azul imperavam. Via meu Salvador, o avô que partiu faz dez anos, deitado em simples vestes brancas. Pensei que não poderia mais estar ali, pois jamais havia recebido outro telefonema dele que foi e é um grande amor. A sanidade recobrava a lembrança de sua morte. Logo, levantei afoito e perturbado, do mais inconsciente encanto. Por fortuitos minutos, fugiu-me a noção do plano que se faz realidade. Desatei a falar, buscando dizer o que sentia, sem sentido, mas com alguma razão. Em um estado de semi sonambulismo desaguei em choro, pelo fascínio daquela experiência. Respirei fundo e levantei num salto. Caminhei atordoado do quarto até a cozinha exasperando matar a sede pungente que rompeu meu laço com aquela esfera onírica e inigualável. Temi a insanidade. Foi mesmo assustador. Era muito forte a vibração que permaneceu em mim por horas seguidas. Diante da geladeira, mais uma vez a emoção se transformou em lágrimas. Tentei em vão narrar o acontecido. Tentei em vão explicar sobre a saudade que não sei dizer. Fui impregnado pelo despertar dourado que iluminou o meu lar, a minha vida e a minha alma. Refaço-me ainda. Banhado de luz.


Não consegui exprimir através das palavras a grandiosidade dessa experiência. Tudo bem. Nem sempre funciona. Queria muito ter gravado, fotografado, ou algo desse gênero. Queria muito um registro. Queria muito poder mostrar aonde eu fui. Para alguns e para mim. Para que jamais pudesse ser esquecido aquele sentimento. Para que jamais fosse esquecido o segredo que habita aquele lugar. Obrigado pela viagem cósmica. Obrigado pelo gozo indescritível. Obrigado por ter vivido o indizível. Obrigado.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

mulata portentosa.




Bianca é uma mulata portentosa do subúrbio carioca, mais precisamente do Engenho de Dentro. Graduada em duas universidades, recentemente tornou-se mestre em Nietzsche (tese intitulada: `O Evangelho ressuscitou na Portela`), pelo Instituto de Filosofia e Ciências Socias da UFRJ. Sua vida acadêmica segue paralela a boêmia que lhe sorve de histórias que vão muito além das fontes analisadas, estudadas e descritas. Bianca apaixonou-se, faz uns anos, por um figurão do instituto, que insistia em declamar frases em latim, durante o ato sexual. Frustrada em demasia, Bianca buscou, incessantemente, compreender o fenômeno que ganhava corpo durante as noites em que passavam juntos. Um dia, em uma manhã, antes que a aula tivesse início, a confusa mulata decidiu se abrir com o amigo Bruno. Depois de toda a sua narrativa escutou do rapaz: explore todo o potencial exótico de nossa mestiçagem brasiliana. Venda-se a um galalau holandês, que tenha bons dentes, corpo viril e mente sã. Não dê espaço ao esquizóide que declama frases em latim enquanto fode. Que maneira mais desagradável de fazer sexo. O latim não deve ter voz, uma vez que é língua morta. Esqueça esse imbecil, de corpo flácido. Nada é ele, além de um biltre. Alguns poucos anos se passaram depois dessa conversa e eles viram-se poucas vezes. Bianca entrou em profunda depressão. Refazia-se, quando encontrou com Diana em uma livraria no centro da cidade. Ficaram amigas na faculdade de Sociologia. Não se viam fazia um tempo e logo sentaram-se no café para atualizarem as novidades. Diana sempre esteve a par da depressão de Bianca. Desde a altura da graduação. Diana: bom te rever viva. Pensei que você pudesse estar morta por causa dessa sua obsessão por aquele que diz cretinices em latim durante o ato de fornicação. Acho tão incoerente o seu penar. Você é tão genial. A única passista da Portela com predileções intelectuais pré-Socráticas. Jamais entenderei. Bianca: obrigada por pensar que sou interessante. Ontem assistia a maior puta de todos os tempos discorrendo sobre os gays. Lembrei do Bruno. Luciana foi mesmo genial. Calculou a ovulação com precisão e deu o grande golpe: engravidou de Mick. E eu aqui sofrendo por aquela barriga flácida que perambula por minh´alma. Como boa mundana eu sou generosa. Ao contrário das moças de família, quase sempre conservadoras e egoístas. Eu fui trocada por uma garota de 21 anos. Estou morrendo de inveja. Ela tem o homem que eu amo. Ela deve estar escutando latim todos os dias. Tudo bem. Hei de vingar-me. Desfilarei, faceira, cortejada por um negro gêge e pirocudo e, que ninguém além de você saberá, jamais me fará feliz como ele me fez. Me fodeu como um deus. Apesar de só agüentar (saudade do trema) uma vez. Tem um menino lindo na minha rua. Loiro, olhos azuis, 23 anos. Ando sem coragem. É tão novinho. Ele me quer. Mas eu não. Ando careta. Aliás, o mundo me parece cada vez mais careta, chato e homofóbico. Agora que o BOPE, faz parecer, controlar tudo, eu queria uma UPP medicinal. Um BOPE para me controlar. Daqui a pouco haverá uma fogueira santa de Israel no pátio do IFCS. Cada vez mais eu compreendo o quão verdadeira é afirmação: diamonds are girls best friends. Com eles, seria eu loureada. Cansei. Quero ser a cabrocha de um gringo e viver exaltando minha afrobrasilidade em alguma cidade mais civilizada. O que meu mentor, de berço luterano, pensaria de mim? Por que essa lacuna tão grande entre minha vida e a de Friedrich? Diana folheia uma revista qualquer e degusta seu café, sem açúcar em uma dança sem par. Você podia, ao menos, me contar uma história romântica, ela diz. Eu não entendo essa patologia, Bianca. Vou denegrir minha vertente nietzschiana e ligar para a mãe de santo. A ancestralidade deve ter respostas míticas para o meu mal sem palavras. Diana: a conta, por favor!

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

carta.




Cara Evandra,

senti tanto a sua falta hoje. Quis começar esse email de maneira formal, para sentir-me como em nossa juventude, quando ainda escrevíamos cartas. Tão remotos parecem esses tempos, não? Porém, a delícia da modernidade é poder escrever e logo, em tão poucos minutos, receber uma resposta. O problema é constatar quando somos ignoradas. Quando somos humilhadas e recebemos desculpas torpes acerca do esquecimento do celular em qualquer lugar, ou coisa e tal. Sabemos, pois, ser uma desculpa mesquinha, uma vez que hoje, em qualquer lugar, a qualquer hora, podemos contar com ele: o celular. Mas aí também há a desculpa da bateria que descarregou. Deixa para lá. Queria te contar que ontem comprei uma lingerie lindíssima, de uma italiana, amiga minha. Ela é finérrima. Ela entende. Comprei uma liga e vesti, sobre ela, um vestido clássico, careta. Fui para a terapia assim, sentindo-me uma putinha de 16 anos no cio, mas com a classe que demanda os meus 32 anos. Com a altivez que sempre galguei alcançar, desci a rua para buscar um táxi, terminada a sessão. Cheguei a casa e fui para o quarto. Maurício chegou e disse que eu estava linda. Beijou-me e foi escovar os dentes. Eu tirei a roupa e fiquei de liga, esperando no quarto, abrindo e fechando a gaveta, bem louca, buscando agir naturalmente. Viajando pin up, sabe? Para Maurício seria natural presenciar aquela cena. Já é muito acostumado com minhas idiossincrasias. Passei a sentir uma tendinite no braço, de tanto abrir e fechar a gaveta, e nada dele voltar. Deitei na cama e comecei a olhar embaixo dela, com a bunda empinada, me sentido tão sexy quanto uma atriz de Porky´s(presa nos 80)... E nada dele voltar. Chego ao banheiro e escuto o barulho daquele lança cheirinho, sabe? Aqueles trecos para explanar que o urubu bicou e logo penso: Brasil!(mostra a tua cara). É, meu bem. Coisas de uma mulher casada, na qualidade de desempregada, e degradada em seu próprio lar. Tem sido duro. Muito duro. Hoje, fui ao encontro de algumas amigas em Ipanema. Todas em recesso pelo final do ano. Procurei pensar que o que vivo é um recesso prolongado. Mas quer saber de uma coisa? Eu quero é ser rica. Cansei dessa busca de uma vida classe média. Cansei de sonhar com um trabalho que me faça trabalhar 5 vezes por semana e ganhar uma merrequinha que me faça sentir gente ,outra vez, durante um mês... Eu quero ser a patroa. Eu quero ser Odete( Roitman). Não pérfida e violenta como ela. Apenas a dona. Bem sucedida. E eu vou conseguir. Mas enquanto isso, eu sigo revelando os mistérios de minha força lunar e escorpiana, de modo que o triunfo se concretize. Apesar da ânsia eu sei esperar. Sempre ando rápido, na frente de qualquer um que me acompanhe, mas eu atraso o passo para esperar. Sou impaciente, pero no mucho. Há o que valha a espera.

Cerca de 30 minutos depois, Diana recebe um email de Eva e nele os seguintes dizeres: Gente, eu não estou entendendo mais nada. Você está possuída.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

bobagens.




Diana levantou-se tarde, como tem sido comum, em sua vida de dona de casa. Foi à cozinha verificar o almoço, e coordenar os empregados. Percebeu que tudo estava em ordem e aguardou seu marido para almoçarem juntos. Esse momento é, para ela, muito importante. Depois do retorno de Maurício ao escritório, ela foi ao mercado, a floricultura e a academia. A vida parecia impecável. O fim da tarde se aproximava e ao voltar ao lar, ela abriu as revistas que haviam chegado pela manhã. No entanto, Diana andava enfadada de suas assinaturas e pediu ao jornaleiro que lhe entregasse um exemplar da Vogue RG. Faltam apenas duas semanas para o final do ano e era preciso entregar-se a pequenas e cabíveis futilidades. Voltou à copa e preparou um chá. Enquanto a água era esquentada ela se recordou de sua conversa, durante mais uma madrugada, com a amiga Eva. Ela dizia: eu estou de saco cheio sabe do que, exatamente? Das pessoas. Depois de um certo tempo de convivência, alguns anos e tal, no geral, com honrosas exceções, são "aquilo mesmo", sabe? Elas não mudam muito. Geralmente não mudam nada. Elas são chatas... Diana refletia sobre aquelas palavras enquanto preparava o chá em efusão. Servia-se de boa dose de chá de hortelã e ia ao escritório ligar seu computador. Olhava o céu cinza, pela janela, e pensava sobre o que iria jantar. Diana havia escrito três “crônicas para ninguém ler “(nome do seu blog), no dia anterior e sentiu-se exausta. Pensou: se com três textos eu fico assim, imagine qual era o estado do Chico Xavier depois daquela usina psicográfica dele? Diana rolou o seu playlist e escolheu uma música para escutar. Antes de decidir-se, pensou na quantidade de música ruim que havia ali. Não entendia o porquê de um dia ter baixado certas faixas. Optou por Royksopp, mesma som que tinha escutado na esteira. Levantou-se e foi ao quarto buscar suas revistas. Tão logo abriu a RG, pensou calada, (era dada a falar sozinha) que se faz necessário certa dose de inutilidade, vez ou outra. Leu sobre o oásis ameaçado dos milionários do Jardim Pernambuco. O oásis invadido por outros milionários sem castas. E o que isso importa se são todos milionários? Se todo aquela universo retratado é, para Diana, um artigo antropológico? E não menos ignorado pela Piauí, por exemplo, que com a devida classe e sarcasmo, adora fazer troça dessa nossa espécie de ricos, tido indevidos, pelos mais tradicionais. Adoram expor toda aquela animosidade de maneira eficiente. Ah, que delícia! Que gostoso saber que Mariana Ximenes é Cult e cheia de opinião acerca dos malefícios da fama zzzzz... E que ela se sente contrariada ao ser questionada sobre sua solteirice. zzzzz... Afinal, só as atrizes padecem desses tormentos. Os homens, ela crê, não passam por nada semelhante zzzzz... E por aí segue o raciocínio de Diana, pávido pelo futuro e parvo pelos segundos entregues as novidades colunáveis da RG. Sentia falta de novidades. Fechou a revista e foi ao banheiro se olhar no espelho. Reparou sua franja e logo lhe veio o Rod Stewart à cabeça. Que merda! Diana pensou. Lavou as mãos, sem propósito, e foi a mesa buscar seu cigarro. Voltou ao quarto com ele aceso e finalmente abriu a TRIP deparando-se com o astro porn, Alexandre Frota, muso de sua infância oitentista. Não muso de Diana. Mas de muitos. Aliás, uma amiga já teve a vagina chupada por ele e narrou detalhes inquietantes... Diana, porém, era muito criança naquela década. Leu, leu e leu. Era Cazuza! Bravo Cazuza! Paixão que Diana negou na adolescência mas não resistiu e assumiu, passados seus 20 anos. Leu o ranking do melhor da cultura na primeira década de 2000. Leu e continuou lendo até o chegar da alta noite pós novela das 21h. Escutou o alarme do carro de seu marido e foi a sala para aguardá-lo. Ganhou lindas e inúmeras flores. Conversaram um pouco e Diana voltou ao seu blog, crônicas para ninguém ler, espaço em que dava voz ao seu pensar. Definia-se uma kantiana e, portanto uma desiludida. Mas nem tanto. Havia recebido lindas e inúmeras flores. Mais uma vez recordou-se da última conversa que teve com Eva: mas eu sei que relacionamento é mesmo uma arte, que para mim, exige suooor. Diana: vem dar aula no Rio pr´eu fazer com você o mestrado? Vou ser sua aluna mais vagabunda. Vou lançar “chamou, chamou?” na classe, meu bem! Então Eva lhe disse: por ÉTICA, eu jamais toparia te orientar, justamente por isso! Você não faria NADA. Eu te conheço. Também por ética, jamais orientarei quem tem ascendente em libra. Escolherei meus orientandos pelo mapa. Esse ascendente patétio... Diana: como fui injusta com escorpião. O melhor de mim. Todos os problemas do meu mapa, que é uma merda, diga-se de passagem, provêem desse ascendente maldito. Esse signo pior que virgem. Eva, categórica diz a amiga: libra é foda mesmo. Sempre mundinho da lua. O que virgem tem de porre por ser pé no chão demais, libra tem de porre por ser aerado demais. Diana diz: tudo clichê. Meu mapa é resultado da inconseqüência dos meus pais. Sorte minha ter sol domiciliado. Sol em leão é luxo. Sorte ter minha lua em escorpião. Eva: sim! Dá ferroadas com o cu! Você tem cuidado bem desse escorpião que anda manso, manso. Ferroadas com o cu é lindo. E minha lua em gêmeos, gente? Lua babado por excelência. E que isso significa?! Sacanagem. E assim seguiram as duas em mais uma noite inefável e contente. E Deise andava sumida.